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227 espécies de árvores dominam Amazônia

Apesar de ter 16 mil espécies, a maioria é rara e só 1,4% ocupa metade da floresta

A floresta com maior biodiversidade do mundo apresenta uma paisagem homogênea. É o que descobriu uma força-tarefa que reuniu mais de cem pesquisadores em torno de algumas perguntas aparentemente simples, mas que não tinham resposta: Quantas árvores existem na Amazônia? De que espécies? E quais são as mais comuns?

A partir da contagem de indivíduo por indivíduo em 1.170 áreas por toda a floresta, os cientistas estimaram que nos 6 milhões de km2 da bacia ocorrem cerca de 390 bilhões de árvores, de aproximadamente 16 mil diferentes espécies. O número que mais surpreendeu, porém, foi o da última pergunta. Somente 227 espécies respondem por metade de todas as árvores do bioma.

O trabalho, divulgado na edição de hoje da revista norte-americana Science, mostra que o todo da vegetação se segura nesse conjunto muito pequeno de espécies, só 1,4% do total, quantidade menor do que a flora de árvores norte-americana.

“Isso nos surpreendeu. Em qualquer ecossistema, poucas espécies são comuns e muitas são raras. Mas não esperávamos que fosse um número tão pequeno. Imaginávamos que algo entre 5% e 10% das espécies fossem dominantes”, disse ao Estado Hans ter Steege, da Universidade de Utrecht (na Holanda), líder do trabalho.

“Mas isso não muda o fato de que a Amazônia é a mais rica área florestal no mundo. Só nos mostra que a distribuição de indivíduos dentro das espécies é um pouco diferente do que imaginávamos”, complementa.

Foto: Unidade de Conservação do Arpa – Reserva Extrativista Mapuá (AP) / Miguel von Behr

O estudo apontou que entre as mais comuns – ou hiperdominantes, como apelidaram os pesquisadores – estão espécies bastante simbólicas do Brasil, como a castanha do Pará, o cacau, a seringueira. A palmeira do açaí (Euterpe precatoria) é a campeã, com 5,21 bilhões de indivíduos. Não à toa, são justamente as árvores cultivadas há milênios pelas populações locais e que até hoje têm amplo uso econômico.

A maior parte das espécies, por outro lado, existe de modo restrito e endêmico. Sendo que mais de um terço das espécies (36%, ou 5.800) é extremamente raro, com populações com menos de mil indivíduos.

De acordo com os autores, essa ocorrência tão irrisória é suficiente para dizer que essas espécies estão globalmente ameaçadas. Juntas, elas respondem por somente 0,0003% de todas as árvores da Amazônia.

Inventário. Esta é a primeira vez em que se consegue fazer um levantamento tão amplo para toda a Amazônia. Outras contagens já tinham sido feitas em escala regional, mas os cientistas nem sequer sabiam quais eram as espécies mais comuns em todo o bioma.
Para fazer o inventário, Steege convocou uma centena de pesquisadores que já trabalhavam na região e criou a Rede de Diversidade de Árvores da Amazônia. Dados que vinham sendo coletados desde 1934 (até 2011) foram aproveitados.

Um dos principais colaboradores foi o botânico brasileiro Rafael Salomão, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que contribuiu com mais de 100 parcelas de levantamento florístico. Em linhas gerais, isso consiste em mapear, em áreas de 1 hectare (equivalente a um campo de futebol), quantas árvores com mais de 10 centímetros de diâmetro de tronco estão ali e de quais espécies. “Já tinha observado que cerca de um terço das espécies apresentavam por parcela apenas um indivíduo.”

As descobertas são importantes para esforços de conservação. “Com nossas estimativas podemos identificar quais são as espécies mais vulneráveis, onde elas estão e quanto de sua população já foi perdida”, diz Steege. Isso pode nortear a criação de áreas protegidas.

* Matéria assinada por Giovana Girardi do Estado de S.Paulo e publicada em 18/10/2013