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Artesanato resgata identidade seringueira em Cazumbá-Iracema

Produção associada ao látex gera renda e promove autonomia financeira para as mulheres

© Todos os direitos reservados. Foto: Luciano Malanski

Esquecido por um longo período, o látex extraído da seringueira ganhou novamente ares de protagonista na Reserva Extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, Unidade de Conservação administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), com sede no município de Sena Madureira, no Acre.

A retomada da utilização do látex como matéria-prima foi possível graças à iniciativa das mulheres da comunidade, que enxergaram nele uma alternativa sustentável de trabalho e passaram a produzir peças de artesanato feitas com borracha.

“Hoje, nós conseguimos tirar nosso sustento da Reserva, mas sempre cuidando e mantendo a floresta em pé. Não precisamos agredir nem derrubar nossas árvores nativas”, conta a artesã Leonora Maia, que coordena o Grupo de Mulheres da Resex Cazumbá-Iracema, responsável pela produção das peças.

Ainda segundo a coordenadora, a primeira experiência de comercialização dos produtos aconteceu em 2011 e, desde então, os moradores da Reserva vêm experimentando mudanças significativas na sua qualidade de vida, tanto pelo aumento na renda quanto pela preservação da identidade seringueira.

“Os homens também participam e auxiliam em alguns processos, a exemplo da coleta do látex, atividade que havia sido abandonada pela comunidade”, pontua Leonora.

© Todos os direitos reservados. Foto: Aurelice Vasconcelos

Cadeia produtiva

Utilizando a técnica conhecida como encauchados de vegetais, as participantes do Grupo de Mulheres misturam ao látex coletado um agente vulcanizante, substância que permite que a borracha seque sob o sol já na forma do produto final. “O agente vulcanizante é fornecido pelo Projeto Encauchados de Vegetais, que atua em diversas comunidades da Amazônia”, afirma Tiago Juruá, chefe da Reserva.

Réplicas de folhas da floresta, em geral usadas como objeto de decoração ou jogo americano, as peças são produzidas em larga escala durante a época do ano em que ocorre maior incidência da luz solar: entre abril e novembro. Ao longo desse período, o Grupo de Mulheres fabrica aproximadamente 4 mil itens por mês.

Para garantir a comercialização dos produtos, o ICMBio articula a participação das artesãs em feiras e exposições, sempre contando com dois importantes parceiros: o Governo do Estado do Acre e o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), que oferece oficinas de empreendedorismo, design e análise de preços. “Nas feiras, elas recebem também diversas encomendas, inclusive de outros estados”, destaca Tiago.

Emancipação feminina

De acordo com Leonora Maia, antes dessa iniciativa as mulheres viviam entre a roça e os afazeres domésticos, numa rotina muito dura que as levava a pensar em ir embora para a cidade. “Elas dependiam dos maridos, não tinham autonomia financeira. Agora, com esse complemento na renda, as mulheres têm sua independência”, argumenta a coordenadora.

Para Tiago Juruá, a importância do projeto reside justamente na geração de renda fruto desse envolvimento feminino no processo produtivo, o que eleva a autoestima e garante autonomia em relação aos homens. “Além disso, outro aspecto relevante é o fato de que o trabalho com a borracha resgata e fortalece a identidade seringueira”, conclui o chefe da Resex.

* Matéria assinada por Nana Brasil e publicada no site do ICMBio em 10/08/2015